julho 08, 2017

A Desumanização - valter hugo mãe

Título original: A Desumanização
Ano da edição original: 2013
Autor: valter hugo mãe
Editora:Porto Editora

"«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»
Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza."

valter hugo mãe é, parece-me, um daqueles escritores que, ou se ama ou se odeia. Eu comecei por amar, com a máquina de fazer espanhóis (comentário aqui). Neste momento estou longe, muito longe de odiar, mas também já não estou propriamente a amar. Os últimos livros que tenho lido dele têm sido, menos cativantes, não sinto a espontaneidade dos primeiros que li. E tendo a achar as histórias propositadamente chocantes. Não sei. Confesso que tenho ganho alguns anti-corpos ao valter hugo mãe. :/

A história de A Desumanização passa-se na Islândia, numa vila pequena e isolada. Dá ideia até de se passar num tempo diferente do nosso, talvez num tempo que nunca existiu.
É a história de duas irmãs, Halla e Sigridur, irmãs gémeas, inseparáveis, as melhores amigas uma da outra. Sigridur mais espontânea, mais extrovertida e criativa, Halla mais contida, menos participativa a viver mais na sombra da irmã. Um dia Sigridur morre. Num dia estava tudo bem, no outro começa a ficar doente e passado pouco tempo acaba por morrer. 
Halla vê-se sozinha pela primeira vez, sem conseguir libertar-se da presença da irmã, que imagina viva debaixo da terra onde foi enterrada. Sem a orientação da irmã e atormentada pela mãe que enlouqueceu um bocadinho com a morte da filha. A mãe culpa Halla por não ter morrido com a irmã. Que sentido faz, sendo gémeas, que uma tenha morrido e a outra tenha o descaramento de não morrer a seguir? Halla quase concorda com a mãe.

Para além das gémeas, dos pais destas, temos Einar, um homem com a mente de uma criança, num corpo de adulto. Vive com o pároco da vila e é obcecado pelas irmãs, diz que vai casar com elas. As miúdas não devem ter mais de 10 anos e Einar tem um atraso mental, embora tenha sido uma criança normal. Diz-me na vila que um trauma de infância o deixou assim. As duas sempre resistiram às investidas de Einar. Halla sozinha acaba por encontrar em Einar um bocadinho da irmã, alguém que a compreende e que demonstra uma sensibilidade e sensatez que a surpreendem.

Não vou avançar com mais pormenores da história porque acabaria por contá-la toda.

Acho que A Desumanização é sobre a desumanização de todos. A desumanização dos pais de Halla e Sigridur e a desumanização de toda uma comunidade. Existe, pelo contrário, uma espécie de humanização de Einar e da relação deste com Halla.O isolamento e a solidão que parecem esbater as fronteiras do que é certo ou errado. Crianças que não parecem crianças e que pensam e sentem como adultos. Adultos que se comportam com a imaturidade de uma criança, na forma de sentir e de agir.

É um livro triste, que não é fácil de ler. Não me consegui abstrair da pouca idade de Halla o que tornou algumas partes da história difíceis de ler e acabei por não perceber o propósito de alguns dos acontecimentos. Fiquei com a sensação de que se trata de uma espécie de fábula, no entanto não tive capacidade para me abstrair da realidade que saltava das páginas e isso acabou por tornar o livro, para mim, de certa forma penoso.

É certo que continuo a gostar muito da escrita de valter hugo mãe, continuo a achar impressionante o à vontade que demonstra com personagens femininas, de todas as idades. No entanto parece-me que as histórias deixaram de me impressionar. Não sei se deixaram de se credíveis, não sei se fui eu que deixei de me identificar, não sei. Só sei que não têm sido aquilo de que tanto gostei na máquina de fazer espanhóis.

Estou dividida. Não sei se recomendo ou não este livro. Acho que vale a pena ler valter hugo mãe, que não é um escritor para as massas e tem uma escrita e uma forma de contar histórias que pode ser muito envolvente e realista. A Desumanização não é um livro para todos e não é um livro que se possa recomendar sem reservas.
Reservas feitas, acho que o recomendo. Vai valer a pena, se não for pela história, é por se passar na Islândia. Morro de curiosidade de conhecer o país desde que li O Sino da Islândia de Halldór Laxness (meu comentário aqui).

Boas leituras!

Excerto (pág. 11):
"Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte. 
Ao deitar-me, naquela noite, lentamente senti o formigueiro da terra na pele e o molhado alagando tudo. Comecei a ouvir o ruído em surdina dos passos das ovelhas. Assim o expliquei, assustada. Disseram-me que talvez a criança morta tivesse prosseguido no meu corpo. Prosseguia viva por qualquer forma. E eu acreditei candidamente que, de verdade, a plantaram para que germinasse de novo. Podia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto abandonado nos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto. A minha mãe, combalida e sempre enferma, tocou-me na mão e disse: tens duas almas para salvar ao céu. Assustei-me tanto que lhe tive ternura. A minha mãe não me perdoaria qualquer falha."

junho 26, 2017

Palácio da Lua - Paul Auster

Título original: Moon Palace
Ano da edição original: 1989
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Foi no Verão em que o Homem caminhou pela primeira vez na Lua. Eu era muito jovem nessa altura, mas não acreditava que viesse a haver um futuro. Queria viver perigosamente, pegar em mim e levar-me tão longe quanto possível e, depois, quando lá chegasse, logo veria o que me aconteceria.
Assim começa a inesquecível narrativa de Marco Stanley Fogg - órfão e aventureiro por natureza. Palácio da Lua é a sua história - um romance que atravessa três gerações, desde o início do século XX à chegada à Lua, e serpenteia entre os desfiladeiros de betão de Manhattan e a beleza cruel do Oeste Americano.
Como Marco Polo rumo ao Extremo Oriente e Phileas Fogg nos seus 80 dias à descoberta do mundo, Marco enceta uma viagem de etapas essenciais marcada pela exultação e pela tragédia, por estranhas coincidências e maravilhosos rasgos de lirismo e erudição."

Estou com alguma dificuldade em dar a minha opinião sobre este livro de Paul Auster. Não tem a ver com o ter gostado ou não, porque gostei, tem mais a ver com a dificuldade em passar para aqui, aquilo que o livro é, sem deturpar e deixar aqui, uma imagem daquilo que o livro não é.

Marco Fogg é um jovem adulto que toda a vida viveu com a perda, o abandono do pai ou a inexistência de um pai, a morte prematura da mãe, a separação do tio, o homem que o acabou de criar quando a mãe morreu, e a recente morte do mesmo, sem qualquer aviso.
Marco Fogg parece sentir que não merece nada de bom, tem um instinto auto-destrutivo que não conseguimos perceber. Quando o tio morre, algo se quebra nele. Passa a vaguear pela vida, não a vive. Afasta todos, inclusive os poucos que lhe são próximos. Vive anestesiado e sem saber como fazer diferente. Deixa de comer, para poupar dinheiro, mas não lhe passa pela cabeça arranjar um trabalho que lhe permita pagar a renda, as contas e alimentar-se. Para sobreviver vai vendendo a única herança que o tio lhe deixou, os livros, centenas de livros.
Um dia bate no fundo do poço, sem casa, sem comer há dias, é salvo pelo único amigo, que o encontra meio morto em Central Park e o leva para casa.

Aos poucos Fogg recupera e começa a vislumbrar alguma esperança na sua vida. Apaixona-se e começa a trabalhar para o misterioso Effing. Effing é uma personagem estranha e misteriosa. É um senhor idoso e paraplégico, cego e com muito dinheiro, que contrata Fogg, quando o seu criado de muitos anos morre. Precisa de alguém que lhe faça companhia, que o leve a passear e lhe leia. Precisa também de alguém que lhe escreva a história que tem para contar, antes de morrer.

O livro acaba por estar dividido em duas partes, a vida de Fogg antes de Effing entrar na sua vida e a vida de Effing antes de se tornar a pessoa misteriosa que Fogg conhece. E que história de vida Effing tem para contar e que pequeno é o mundo, uma autêntica ervilha. E mais não digo.

Gostei muito deste livro. Como é habitual em Auster, a escrita é natural, sem grandes floreados e subterfúgios. É também um livro que tem uma angústia crescente, em que temos dificuldade em compreender Fogg e a sua forma de pensar. Tememos por ele, por sentirmos que está doente, ao mesmo tempo que o queremos abanar para que desperte do sono pesado onde se encontra.
À medida que a história vai decorrendo, o ambiente pesado vai-se dissipando e, fazemos figas para que tenha um fim à Paul Auster, cheio de esperança de que dias melhores virão!

Recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 75):
"Com o passar do tempo, comecei a reparar que as coisas boas só me aconteciam quando eu deixava de as desejar. Se isso era verdade, então o inverso teria também de o ser: desejar demasiado determinada coisa impedi-la-ia de acontecer. Essa era a consequência lógica da minha teoria, pois se eu provava a mim mesmo que era capaz de atrair o mundo, então teria forçosamente de concluir que também poderia repeli-lo. Por outras palavras: uma pessoa só alcançava aquilo que desejava não o desejando. Não fazia sentido nenhum, mas o que me agradava nesta ideia era precisamente a sua total incompreensibilidade. Se as minhas necessidades só podiam ser satisfeitas se eu não pensasse nelas, então todos os pensamentos acerca da minha situação eram necessariamente contraproducentes."

maio 16, 2017

No Silêncio de Deus - Patrícia Reis

Título original: No Silêncio de Deus
Ano de edição: 2008
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Um escritor descobre que está a morrer.
Uma jornalista tenta desvendá-lo.
Ambos procuram redenção.
Encenam uma fuga à realidade.
Três cidades: Lisboa, Jerusalém, Amesterdão.
E ainda uma prostituta, um barman, um médico homeopata.
A possibilidade da salvação e a procura da humanidade.
As falhas de cada um. O passado como identidade. Um fado.
Vários livros. Dor e consternação.
No fim, sem medo, uma ideia melhor."

Mais um livro de Patrícia Reis que se lê num ápice, na já habitual escrita leve e envolvente que tem caracterizado todos os livros que já li dela.
Mais uma vez uma história triste ou, pensando melhor, uma história que tem tudo para nos deixar tristes e, no entanto, não é essa a imagem que fica quando chegamos à última página e Manuel Guerra pede "Esqueçam-se de mim."
Manuel é um escritor de meia idade, muito respeitado, a quem é diagnosticado um cancro. Viúvo e solitário, afastado do único filho que teve com Ana Luísa, a mulher que tinha como certa, até ao dia em que morreu e se apercebeu do quanto gostava dela e do quanto iria sentir a sua falta. Um dia, numa das suas deambulações pelas ruas de Lisboa é atraído para uma agência de viagens. Entra e pede uma viagem para Amesterdão. Porquê Amesterdão? Porque sim, porque lhe soou bem. Parte, no dia seguinte, sem bilhete de regresso. Sozinho e sem avisar ninguém. Quem iria avisar? Apenas o seu editor parece preocupar-se com ele... mais ninguém dará pela sua falta.

Sara é uma jovem jornalista, filha de uma judia neurótica e cada vez mais embrenhada na loucura, e de um português ternurento que a faz rir. Sara mantém uma relação muito distante com a mãe e foi praticamente criada pelo pai, que viu, recentemente, definhar no IPO de Lisboa.

Sara e Manuel conhecem-se em Lisboa, antes de ele partir para Amesterdão, quando Sara lhe faz uma entrevista. Voltam a cruzar-se em Amesterdão quando Manuel já lá está há uns meses e Sara regressa de uma viagem a Israel onde foi à procura das suas raízes.

O livro é feito por estes dois, Sara e Manuel. Ela procura uma forma de viver sem angústias, menos sozinha e ele procura morrer em paz e sozinho, sem dramas. Ambos questionam e têm questionado, ao longo das suas vidas, o estrondoso silêncio de Deus nas suas vidas.

Gostei do livro. Normalmente tendo a gostar mais das personagens femininas, no entanto, neste gostei muito do Manuel e da forma como parece encarar a vida e a morte. Todas as partes que são narradas por ele transmitem uma certeza sobre o seu passado, presente e futuro. Como se a certeza da morte próxima lhe trouxesse uma nova clarividência e uma nova forma de encarar a vida.

Gostei e recomendo, porque a história é boa, a escrita melhor ainda e vale sempre a pena ler Patrícia Reis.

Boas leituras! 

Excerto (pág. 177):
"No carro, já com o motor a fazer barulho, fechei as portas num gesto de protecção que me pareceu feminino e senti as lágrimas a nascerem no estômago. Pena de mim, do mundo que terá de continua sem mim, da solidão de estar sozinho num carro que não me afaga. Na rádio Tony Bennett canta Put on a Happy Face e Deus tem um sentido de humor infame e deve ser esse lado misterioso e cruel que atrai multidões, não é? A certeza de que todas as dores do mundo nada serão comparadas com a ira de Deus. Ele será, sempre, maior e imprevisível. É reconfortante não ter essa crença, não ter essa bóia. Só sou eu e o meu cancro, a minha próstata que já não é do tamanho de uma avelã, em forma de bolo açucarado, americano. Também a próstata é uma invenção dos americanos. Patente registada a confirmar a solenidade da descoberta. (...) Se Ana Luísa fosse viva está coisa que existe em mim teria uma dimensão de morte em nada comparável com o resto, seja o resto o que for. Agora não faz diferença."

março 26, 2017

O Tempo Entre Costuras - María Dueñas

Título original: El Tiempo Entre Costuras
Ano da edição original: 2009
Autor: María Dueñas
Tradução: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

"«O Tempo entre Costuras» é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso; sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias.

Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo."

O Tempo Entre Costuras narra a história de uma costureira, Sira Quiroga, na Espanha de Franco, que acabou por se ver envolvida na luta contra Franco e Hitler.

Sira parte para Tânger, mesmo antes de rebentar a Guerra Civil Espanhola. Parte para viver um grande amor. Quando esse grande amor se transforma num pesadelo, Sira vê-se sozinha e sem dinheiro. Com a guerra em Espanha, não tem como voltar para junto da mãe e acaba por ficar retida em Tânger. Ferida e doente, Sira abandona Tânger e acaba por encontrar abrigo em Tetuán.
Pouco a pouco e com a ajuda de Candelaria, uma marroquina cujo principal meio de sobrevivência era o contrabando, Sira reergue-se das cinzas e começa a costurar para ganhar algum dinheiro. A costura era o que fazia antes de sair de Madrid. Aprendeu a manejar as agulhas e as linhas com a mãe e era algo a que não dava grande importância. Descobre em Tetuán que é muito boa no que faz e a sua arte é muito valorizada, mais ainda quando, está rodeada de mulheres, da alta sociedade europeia - espanholas, francesas e alemãs que também ficaram retidas em Marrocos por causa da guerra.
Sira começa a criar um nome na alta-costura e no seu atelier em Tetuán, conhece aquela que vai ser a maior responsável pela reviravolta na sua vida, Rosalinda Fox, uma inglesa extrovertida que mantém uma relação com Beigbeder, o alto-comissário de Espanha em Marrocos. É Rosalinda quem mais tarde, consegue tirar a mãe de Sira de Espanha e trazê-la para junto dela, em Tetuán. É também por intermédio de Rosalinda que Sira regressa a Madrid para montar um atelier onde se pretende se fazer muito mais do que vestidos de alta-costura. :)

O Tempo Entre Costuras é um romance histórico? Sim, também é um romance histórico. É um romance cor-de-rosa? Sim, também é um romance cor-de-rosa, mas de um rosa muito levezinho, não é nada lamechas e não é arrebatadoramente romântico. O que O Tempo Entre Costuras é, é um romance bem escrito e com personagens que cativam, bem desenvolvidas. É sobretudo, um romance que sabe conjugar bem a parte histórica com a parte ficcional, e que sabe criar muito bem a envolvência da época e dos diversos sítios por onde Sira passa.

Posto isto, é um livro que se lê bem e que nos mantém interessados no destino das personagens e que nos permite conhecer um pouco mais da história recente da Europa e do Mundo, no entanto, confesso que não fiquei muito impressionada com este livro. Acho que a parte da história que é passada em Marrocos poderia ter sido contada em menos tempo, uma vez que, é quando Sira regressa a Madrid que tudo acontece. O livro ganha outro ritmo e outro interesse e, tudo acaba por acontecer em 250 páginas, num livro que tem mais de 600.

É um livro que recomendo, sem grandes hesitações e sem grandes explicações. Não é de todo tempo perdido.

Boas leituras!

Excerto (pág. 138):
"Desatei a correr. Às cegas, furiosamente. Protegida pelo negrume da noite e arrastando o saco com as armas; surda, insensível, sem saber se me seguiam e sem querer interrogar-me sobre o que teria sido feito do homem de Larache em frente da espingarda do soldado. Perdi uma babucha e uma das últimas pistolas acabou por se desatar do meu corpo, mas não me detive por nenhumas das perdas. Limitei-me a continuar a corrida na escuridão, seguindo o traçado da linha, meio descalça, sem parar, sem pensar. Atravessei um campo plano, hortas, canaviais e pequenas plantações. Tropecei, levantei-me e continuei a correr sem um descanso, sem calcular a distância que as minhas passadas percorriam. Nem um ser vivo saiu ao meu encontro e nada se interpôs no ritmo desengonçado dos meus pés até que, entre as sombras, consegui divisar uma placa cheia de letras. Apeadeiro de Malalien, dizia. Seria aquele o meu destino."

fevereiro 25, 2017

[Filme] Batalha Incerta


Título Original: In Dubious Battle
Realização: James Franco
Duração: 1h50min
Origem: EUA

Sinopse:
In the California apple country, nine hundred migratory workers rise up "in dubious battle" against the landowners. The group takes on a life of its own-stronger than its individual members and more frightening. Led by the doomed Jim Nolan, the strike is founded on his tragic idealism-on the "courage never to submit or yield." Published in 1936, In Dubious Battle is considered the first major work of Pulitzer Prize-winning author John Steinbeck.

In Dubious Battle - Batalha Incerta. O filme baseado na obra-prima e homónima, de John Steinbeck. 

Não será o melhor filme de 2017, mas é um filme que vale a pena ver pela história e pelo facto de ser baseado no livro de um escritor único e inigualável que nunca desilude.

Trailer:


O Homem Suspenso - João de Melo

Título original: O Homem Suspenso
Ano da edição original: 1996
Autor: João de Melo 
Editora: Círculo de Leitores

"João de Melo, natural dos Açores e nascido em 1949, é autor do muito premiado Gente Feliz com Lágrimas. Em O Homem Suspenso apresenta uma apaixonante análise e reflexão sobre a identidade portuguesa, construindo e desconstruindo os valores e hábitos identitários portugueses, quer através da descrição dos longos passeios numa Lisboa que tem tanto de bela e imponente como de paradoxalmente anacrónica, quer nas considerações ponderadas do seu narrador. O Homem Suspenso é indiscutivelmente um romance essencial na carreira de João de Melo, e uma obra obrigatória em qualquer biblioteca."

O Homem Suspenso é um livro um pouco estranho e tenho alguma dificuldade em escrever sobre o que li. Não sei onde é que li que o livro fazia uma reflexão sobre a identidade portuguesa após a entrada na C.E.E.. Fiquei com a ideia de que o livro seria diferente e enquanto o lia dei por mim a pensar que tinha muito pouco a ver com a entrada do país na Comunidade Económica Europeia, ou pelo menos assim me pareceu.

João de Melo tem uma escrita muito bonita, não me ocorre outra palavra que descreva a forma como ele conta as suas histórias. O Homem Suspenso não é muito diferente, nesse sentido.
O Homem Suspenso narra a história de um homem (não me recordo se alguma vez nos dizem como se chama), professor universitário, casado com Carminho, a quem traiu alguma vezes durante os anos em que esteve casado com ela.
A história é narrada na primeira pessoa e começa com este homem a vaguear por Lisboa, confuso e meio perdido, sem saber para onde ir nem o que fazer. Surge-nos como um homem a quem foram retiradas todas as certezas, tudo aquilo que sempre teve como garantido parece ter desaparecido. Quem ele achava que era, o que ele achava que tinha e tudo aquilo sobre o qual foi construindo a sua vida, parece ter deixado de fazer sentido.
Carminho terminou o casamento de anos e pediu-lhe que saísse de casa. Sem qualquer hesitação, drama ou rancor, pediu-lhe que se fosse embora porque "Creio, porém, ela deixou de viver-me; que desistiu de amar-me com amor".
É depois deste desfecho inesperado que se inicia a narrativa de O Homem Suspenso que, depois de dormir no carro, inicia uma viagem por uma Lisboa ainda meio adormecida, acompanhado apenas por um cão vadio que o conquistou na sua recente e desconhecida solidão e que nunca mais perdeu de vista.

A mim, O Homem Suspenso, pareceu-me uma reflexão sobre as escolhas que fazemos na vida e o impacto que as mesmas têm em quem nos rodeia e em quem, supostamente, nos é mais próximo. É uma reflexão sobre as relações que vamos criando ao longo da vida e que nem sempre sabemos manter. É uma reflexão sobre o crescimento e a imagem que temos de nós próprios e que, muitas vezes, parece estar desfasada da realidade.

Se tem alguma coisa a ver com a entrada de Portugal na C.E.E.? Talvez, metaforicamente, o país possa ser O Homem Suspenso, um pouco perdido a tentar encontrar o seu próprio caminho, numa estrada completamente estranha, cheia de perigos, mas também repleta de oportunidades e de escolhas. :)

Boas Leituras!

Excerto (pág. 78):
"Todavia o que vai dentro de si é como um grito e um sufoco. Um grito de protesto e indignação, um sufoco de misericórdia ou pena a seu respeito.Pudesse ele chorar, dir-lhe-ia agora tudo o que sempre se esqueceu de lhe dizer chorando. Se pudesse enlouquecer, rir-se-ia alto, correria de braços erguidos pela casa fora, aos gritos, tenebroso perdido alucinado, protestando amá-la mais do que à própria vida. Sair de casa, expulso por ela, eis o infinito absurdo o ridículo o dado precioso e inexplicável da sua tragédia. Em vez do corpo de um homem vivo, sairão daqui para a morgue a chama o fogo e a cinza do seu espírito. A sua natureza. O reino a que pertence, também. Como ele muito bem sabe, como ela sempre soube, como ela nunca deixará de saber."

fevereiro 17, 2017

Gente Pobre - Fiódor Dostoiévski

Título original: Bédnie Liúdi
Ano da edição original: 1866
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução do Russo: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Editorial Presença

"Gente Pobre marca a estreia de Dostoiévski na literatura, em 1846, e estabelece desde logo os fundamentos para uma abordagem social, psicológica e profundamente corrosiva da compreensão humana. A análise pormenorizada das personagens e suas convicções, enquadradas por um pano de fundo de crítica subtil, ganha em Dostoiévski uma força e um poder imagéticos que extravasam as páginas dos seus livros. Em Gente Pobre, o autor transporta-nos para um dos bairros mais miseráveis de São Petersburgo, onde um funcionário de meia-idade troca correspondência com uma jovem costureira. Demasiado pobres para se casarem, o seu amor passa todo e apenas por cartas mantidas ao longo do tempo, que reflectem a cruel realidade do quotidiano passado num ambiente de extrema precariedade. Uma leitura incontornável para quem sinta curiosidade pelo universo dostoievskiano."

Gosto de escritores russos, e particularmente de Dostoiévski. Gente Pobre é conhecido como sendo a sua primeira obra publicada e, embora seja Dostoievski, não deixa de ser o primeiro livro de um jovem aspirante a escritor. Quero dizer com isto que não é espectacular, é antes uma obra interessante que vale a pena ler.

A história passa-se em São Petersburgo onde a pobreza e a falta de condições é de certa forma escondida, meio envergonhada.
Um homem de meia idade, trabalhador, não ganha o suficiente para alugar um quarto, o que ganha permite-lhe apenas alugar uma cama, na cozinha de um apartamento.
Este homem está apaixonado por uma jovem mulher, órfã que vive com dificuldades. De saúde frágil, vai ganhando algum dinheiro com trabalhos de costura. Os dois moram perto um do outro, mas são raras as vezes em que se encontram. O livro é feito das cartas que trocam, diariamente, entre si. Nas cartas desabafam as suas misérias e as dificuldades que diariamente têm de enfrentar. Ele procura não a preocupar e gasta mais do que tem a satisfazer alguns dos desejos dela. Ela procura descansá-lo e desvalorizar as necessidades por que passa. Esta é uma relação que não é bem vista pelos outros. Um homem mais velho, pobre, a cortejar uma jovem órfã, educada mas pobre. São alvo de chacota e acabam eles próprios por não reconhecer, nem um ao outro, que o que sentem pode ser mais do que carinho e amizade.

Acaba por ser um livro triste. Duas pessoas procuram o apoio uma da outra, não sei se por amor ou por necessidade de sobrevivência, financeira e emocional. Duas pessoas que não têm mais nada no mundo, nem nada por que ansiar, com sonhos tímidos, como se não acreditassem verdadeiramente que as suas vidas poderiam melhorar, como se não tivessem o direito sequer a sonhar. É um livro triste.

Gente Pobre, como já disse, é interessante, e que vale a pena ler, por ser de Dostoiévski e por ser a sua primeira obra.

Boas leituras!

Excerto (pág. 14):
"Eu não estou zangado, meu amorzinho, isto é apenas um desgosto meu ao lembrar-me de tudo aquilo, um desagrado para comigo por lhe ter escrito de forma tão alambicada e estúpida. Hoje também fui para o serviço todo gabarola, de tal maneira o meu coração exultava. Estava, nem mais nem menos, com alma em festa; estava feliz! Lancei-me aos papéis com todo o zelo, mas o que resultou daí? Terminada a tarefa e olhando em volta, vi tudo como dantes: cinzento, escuro. As mesmas manchas de tinta, os mesmos papéis e mesas, eu próprio o mesmo, tudo tal como sempre foi; porquê então cavalgar Pégaso? E porque me aconteceu aquilo? Só porque brilhou o sol e o céu ficou azul... foi por isso? E que fragrâncias desencantei, se no nosso pátio, debaixo das janelas, acontece cada coisa! Só pode significar que foi por estupidez que imaginei tudo aquilo. Acontece às vezes que o homem se perde nos seus próprios sentimentos e se põe a disparatar. Não é mais do que o ardor exagerado e estúpido do coração. Não caminhei para casa, arrastei-me para casa; a cabeça começou a doer-me sem motivo; uma desgraça, como se sabe, nunca vem só. (Talvez fosse o vento que me esfriou as costas.) Feito parvo, ficara alegre com a Primavera e tinha ido para o trabalho com o capote leve. E a menina também se enganou quanto aos meus sentimentos! Percebeu o meu desabafo no sentido errado. Era o afecto paternal que me inspirava, pura e simplesmente, Varvara Alekséevna, porque, na sua orfandade amarga, eu ocupo o lugar de seu pai; (...)"