outubro 08, 2017

Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim - Afonso Cruz

Título original: Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim
Ano da edição original: 2010
Autor: Afonso Cruz
Editora: Editorial Caminho

"Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras."

Um livro pequeno mas cheio de grandeza. Um livro que parece ser para os mais pequenos mas que agarra os mais crescidos.

Os Livros que Devoraram o Meu Pai é um livro que se lê numa tarde, no meu caso, de praia. É um livro que me deixou de sorriso no rosto, talvez porque me lembra a infância de cabeça enfiada nos livros, muitas vezes sem me aperceber que estava escuro lá fora e que já mal conseguia vislumbrar as letras nas páginas.
Desenganem-se, no entanto, porque este não é um livro alegre, de todo. É um livro desconcertante mascarado de livro para pequenos leitores.

Fala da confusão que é a adolescência e a luta diária que é procurar o nosso lugar no mundo. Um sítio onde sejamos reconhecidos e amados pelo que somos e nada mais. 
É um livro sobre o passado e as memórias e sobre aprender a viver com os nossos erros e as nossas culpas. Ninguém é só bom e ninguém é só mau. Todos temos áreas cinzentas com as quais lutamos, ou não, todos os dias.

E é isto. É isto e mais uma coisas, o que já é muita coisa para um livro com tão poucas páginas!

Recomendo sem qualquer hesitação. Gostei da escrita do Afonso Cruz.

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 125)

"Tenho 72 anos. Reli está história que escrevi já depois de fazer treze anos e que relata, com rigor, aquilo que se passou na minha juventude. Cometi muitos erros ao longo da vida, e agora resta-me, tal como Raskolnikov, rever o meu passado e tentar compreendê-lo como um cego a apalpar um elefante e, quem sabe, perdoar-me e aprender a viver com esse Mr. Hyde que aluga um apartamento na nossa cabeça. Quando penso no Bombo, choro. Mas na altura é difícil saber fazer as coisas certas."

O Pecado de Porto Negro - Norberto Morais

Título original: O Pecado de Porto Negro
Ano de edição: 2014
Autor: Norberto Morais
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Conhecida entre os marinheiros do mundo como a Cidade do Amor Vadio, Porto Negro é um lugar remoto, plantado no coração dos trópicos que durante o dia, dizem, cheira ao suor dos homens e, à noite, ao perfume das mulheres da vida. Em Porto Negro vive Santiago Cardamomo, um jovem estivador que divide o tempo entre os bares do porto e a cama das mulheres, e também Ducélia Trajero, a filha donzela do açougueiro da terra, em quem o pai deposita todas as esperanças mas que sonha com Santiago desde o primeiro dia em que o viu. Só que em Porto Negro vive ainda Rolindo Face, o mesquinho empregado do açougue que jurou a si mesmo que a filha do patrão haveria de ser sua.
Amor, ódio, ciúme e vingança misturam-se numa trama que atravessa mais de meio século e envolve personagens tão distintas quanto uma antiga escrava que aguarda num palacete em ruínas o regresso do seu amo, um foragido da justiça, ou um mulato adamado que nas desertas horas da madrugada se perde pelo porto à procura de afecto."

Não sabia o que esperar deste livro. Tinha lido uma boa crítica, já não sei onde, e o nome ficou na lista de livros a comprar. 
Norberto Morais traz-nos uma história surpreendente com personagens inesperadas e foi, por isso, uma boa surpresa e um autor a manter debaixo de olho. 

Numa cidade costeira de um país da América do Sul, pelo menos assim parece, o calor torna os homens atrevidos e as mulheres disinibidas. Santiago Cardamomo é o solteiro mais cobiçado de Porto Negro. Não por ser rico, mas por ser especialmente habilidoso com as mulheres e o mais bonito de toda a cidade e arredores. :)
É um D. Juan e nenhuma mulher, nova ou velha, lhe consegue dizer que não. 

Ducélia Trajero é a única filha do dono do açougue de Porto Negro. É a menina dos olhos do pai, que a protege de todos o olhares para afastar os menos bem intencionados. Não muito bonita nem muito feia, Ducélia não chama a atenção, paira por Porto Negro sem virar muitas cabeças. É uma miúda tímida, dedicada ao pai, sem nada que a destaque da multidão. 
Vive perto de Santiago, que nunca olhou para ela duas vezes. Ela, no entanto, vive apaixonada por ele, desde que o viu pela primeira vez. Sabe que não é correspondida, e na sua inocência acha que o seu sentimento lhe basta para ser feliz. 

Todos os dias ao fim do dia, quando os trabalhadores do Porto regressam a casa, Ducélia vai varrer para a frente do açougue, de onde consegue ver Santiago chegar todos os dias. Todos os dias Santiago chega e nunca repara nela, até que, um dia, olha e repara. Um dia Santiago repara em Ducélia. E ao reparar nela, não pode deixá-la escapar. Nesse primeiro olhar não existe amor por parte de Santiago. E quando Santiago consegue o que quer, não tem qualquer intenção de continuar a ver Ducélia. Nunca se apaixonou por ninguém e não tem qualquer desejo disso. Ducélia, desiludida, sem perceber o que se passou, não volta a sair para varrer a frente do açougue e não procura mais Santiago. O silêncio de Ducélia começa a perturbar Santiago e quando dá por ela é ele que a procura, é ele que vai atrás dela. E quando dá por ela, está completamente apaixonado por Ducélia, pela ternura, pela paciência, pela compreensão, pelo seu silêncio e pelo amor que ela lhe dedica. 

Um amor assim, improvável, mas sincero e eterno, nunca pode correr bem nos livros. Este não é excepção. Ninguém sabe dos dois, o pai de Ducélia não pode sequer sonhar com o que se passa, é certo que matará Santiago, ou mesmo os dois.
Tudo poderia correr bem, não fosse a existência do ciúme. Rolindo Face é o empregado do açougue e é, desde que se lembra apaixonado pela filha do patrão. Prepara-se para pedi-la em casamento quando se apercebe de que se passa alguma coisa com a doce Ducélia e decide segui-la. O que vê deixa-o completamente louco. E louco de ciúme, por despeito, decide vingar-se dos dois. E é por causa de Rolindo que uma bonita história de amor, se torna num banho de sangue e vingança. 

Gostei muito da escrita de Norberto Morais e da forma como nos vai contando a história. 
Só não me agradou a forma como refere alguma coisa sobre alguma personagem e diz que se houver oportunidade nos conta. É claro que acaba por não contar nada e às tantas torna-se irritante. Tirando a utilização exagerada desta espécie de "bengala", gostei muito da escrita e as personagens estão bem construídas. É fácil criarmos empatia com elas. Senti verdadeiro asco por Rolindo, nada do que foi contado sobre a vida miserável que levava me leva a sentir alguma pena dele, só mesmo asco. 

Norberto Morais é para repetir e recomendo sem qualquer hesitação. Leiam que vale bem a pena. 

Boas leituras! 


Excerto (pág. 179)
"Agora às voltas na enxerga, batia-lhe a raiva em ondas revoltas contra o penhasco do peito. Tinha vontade de espernear, de gritar, de berrar, de esguichar, de se rasgar e sair de dentro de si. Sufocava. A imagem daquele sonho, daquela tarde, corroíam-lhe as entranhas com a violência de um ácido. Odiava-os! Odiava-os tanto! Em especial a ela. Tão recatadinha, tão acanhada, tão púdica... Estava confirmada a saúde, o brilho, a concretude dos gestos. Odiava-a! Odiava-a, odiava-a, odiava-a... Vadia! Fingida! Puta! Mais puta que a puta mestra de um vespeiro de putas! Ah, maldito fosse pela eternidade o Criador das mulheres! Tinha dores, Rolindo Face. Tinha dores. Sofria como um cão desdentado sobre uma montanha de ossos. Queria morrer, queria matar, queria nunca ter nascido; ter-se fingido de morto no dia em que veio à luz e arrefecer, arrefecer até gelar por completo, e apodrecer, como agora, naquela febre húmida e regélida que o queimava e desfazia de tão pantanosa e tão fria. Estragara tudo. Burra! Burra, burra, burra, rangia os dentes Rolindo Face. Odiava-a tanto! Tanto, tanto, tanto... Odiava-a tanto!
E ali, no canto escuro da cozinha - único canto permitido do mundo -, ali, onde a coragem se agigantava agora, que debaixo da estopa qualquer rato pelado é um colosso destemido; ali, onde não haveria de pregar olho até o Sol nascer, jurou a si mesmo que os haveria de matar."

setembro 01, 2017

[Kindle] A Cidade do Medo (Não Matarás vol.I) - Pedro Garcia Rosado


Título original: A Cidade do Medo - Não Matarás vol.I
Ano da edição original: 2010
Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora:Edições ASA

"Para a Polícia, a morte violenta de um sem-abrigo cuja identidade é quase impossível de determinar não é uma ocorrência a que se possa dedicar muito tempo. Mas a situação altera-se na manhã seguinte: aparecem mortos, da mesma maneira, mais dois sem-abrigo na Baixa de Lisboa. E, dois dias depois, são três os sem-abrigo atacados. O serial killer começa, porém, a deixar pistas - e estas apontam para um culto satânico, mas também para a maçonaria. Com o medo a instalar-se em Lisboa, onde o assassino vai multiplicando os seus actos de violência, e enquanto Joel Franco começa a descobrir as origens desta vaga de crimes, o presidente da Câmara de Lisboa e um seu discreto aliado na própria PJ percebem quem é o autor das mortes: o homem que quiseram transformar em bode expiatório quando começou a correr mal o comércio ilícito de terrenos na zona do projectado aeroporto da Ota. No qual pontificara o presidente da Câmara quando ainda era ministro do Ambiente… E em breve vão estar frente a frente dois homens que, à sua maneira, procuram justiça: o assassino propriamente dito e Joel Franco, que tenta vingar a morte de um amigo de infância em cada homicida que persegue. É bem provável que ambos desafiem a antiquíssima norma que regula a sociedade humana: «Não matarás.»

«Não Matarás» é uma série de thrillers ambientados em Portugal e com personagens portuguesas. O seu protagonista é Joel Franco, inspector na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária que, em todos os crimes que resolve, sabe estar a vingar uma morte a que assistiu na infância."

Depois de muito resistir eis que um ereader me entra pela porta a dentro... :) A resistência tinha muito a ver com o preço dos aparelhos, o preço incompreensível dos ebooks e a pouca variedade de livros em português. Acabei sempre por ir adiando a compra.
O dia acabou por chegar e, para estrear o meu Kindle, um autor português de quem tenho lido boas críticas e que tinha esta série Não Matarás a preços convidativos.
Depois de ultrapassadas as exasperantes dificuldades em tornar o epub compatível com o Kindle, preparei-me para estranhar a leitura. E afinal, não estranhei... assim tanto. Não acho que seja para todo o tipo de livros, mas a verdade é que a leitura é muito cómoda, consegue-se ler em qualquer lado e o dispositivo é leve e de fácil utilização. Do que é que senti falta? Da parte mais emocional que associo ao acto de ler, do toque do papel, do cheiro dos livros e de fechar e ter uma capa pela qual podemos passar a mão. Essas pequenas grandes coisas que facilitam uma espécie de ligação emocional com o livro, com a história e com as personagens. No entanto, gostei da experiência e não estou desiludida com a aquisição. Acho que vou usá-lo muito, mesmo tendo em conta as limitações que ainda existem ao nível do mercado de livros eletrónicos.
Mas falemos do livro porque estamos no Quero um Livro e não no Comprei um Kindle. E agora?!. :)

Já não sei muito bem como é que os livros de Pedro Garcia Rosado entraram no meu radar, mas ainda bem que entraram.
A Cidade do Medo inicia a trilogia Não Matarás, que inclui ainda Vermelho da Cor do Sangue e Triângulo.
A Cidade do Medo é um policial em português passado em Portugal e é bastante bom! E porque é que estou surpreendida? Bem de acordo com recente formação, todos nós somos enviesados e este era definitivamente um caso de enviesamento. Posso estar enganada, uma vez que o género não abunda nas minhas estantes, mas a verdade é que não abundam escritores portugueses de policiais. Não me recordo de alguma vez ter lido um livro do género de um escritor português.

Por se tratar de um policial, para os quais convém partir sem grande informação, tenho sempre algum receio de dizer demais e estragar as surpresas do livro, por isso não me vou alongar.  
A Cidade do Medo é uma história de corrupção, de alienamento social, de vingança e é, também um retrato interessante deste nosso país à beira mar plantado.
Não precisam de saber mais do que já é dito na sinopse e acho que basta dizer-vos que o livro está muito bem escrito, a história prende-nos, as personagens são interessantes e a leitura flui com muita naturalidade.

Recomendo sem quaisquer hesitações. E já tenho os outros dois livros que completam a trilogia na minha nova biblioteca digital. :)

Boas leituras!

Excerto:
"O colega mantém-se imóvel. Joel avança na sua direção. Vê-lhe os pés descalços, as calças do pijama de flanela, os braços estendidos e as mãos de dedos flectidos. E, depois, o rosto. Tem uma expressão de dor e os olhos estão abertos. Muito abertos. Cheira a urina. Da casa de banho ou do corpo de Augusto?
Joel sacode-o, mas o amigo não se mexe. Puxa-lhe por uma mão, mas ele não reage. E não respira. Joel empalidece. Até este momento foi poupado a um contacto directo com a morte. O pai morreu na guerra, mas o corpo ficou em África, desfeito. Augusto é o primeiro morto que vê. Joel aproxima-se mais, vence o medo e a repugnância e fixa o olhar nos olhos baços do amigo.
Todos os dias lhe dizem que a morte é uma passagem para um mundo melhor. Mas o rosto de Augusto não tem a expressão dos crentes."

julho 31, 2017

Serpentina - Mário Zambujal

Título original: Serpentina
Ano de edição: 2014
Autor: Mário Zambujal
Editora: Clube do Autor

"Ingénuo e atrevido, sonhador e realista, pontual e transgressões, o mundo de Bruno D. L. Bracelim leva-nos a situações armadilhadas e a um mundo feminino que mostra o perigo encantador de supostos rostos perfeitos. 
A poucos dias de soprar as sete velas, o seu destino sofreu uma entorse. A família partiu para o Canadá e ele, criança enfermiça, ficou a cargo dos desvelos da madrinha Henriqueta. Chegado à idade adulta, solteiro e bom rapaz, passa as noites no terraço de sua casa, saudando a lua e adivinhando ao longe, noutro terraço, os contornos de uma esguia figura de mulher, enquanto persegue uma obsessão: a demanda do rosto feminino insuperável. 
Mas não há bela sem senão. E o destino prega-lhe outra partida. O que lhe parecia ser um mero encontro profissional acaba por se transformar num estranho caso. Uma avaria no seu mini e uma pancada de um jipe conduzido por uma mulher enigmática é o princípio de uma trama que o levará a situações nunca imaginadas. 
E tudo o que parecia previsível, exacto, perfeito, como um relógio suíço, acaba por se transformar num enredo de acasos em que a realidade ultrapassa a ficção a provar que nada é mais imprevisível do que o passado. 
Com o seu estilo inconfundível, Mário Zambujal oferece-nos páginas de supremo divertimento em que a imaginação e o humor se entrelaçam com a reflexão e a emoção. "

Mário Zambujal é uma estreia na minha estante e, uma agradável surpresa. O livro é ideal para um dia de chuva ou um daqueles dias em que queremos ler mas nada de muito denso. 
Serpentina narra a história de Bruno Bracelim, um argumentista, que tenta sobreviver entre trabalhos. 
Bruno valoriza muito a ordem e a previsibilidade na sua vida. Pessoas que se atrasam tiram-no do sério e procura, desde que se lembra, a mulher com o rosto perfeito e que será a mulher da sua vida. Como é natural nem tudo é previsível e a perfeição é um conceito muito subjectivo e, por isso Bruno acaba por se ver envolvido numa série de acontecimentos estranhos e sobre os quais não tem qualquer tipo de controlo. 

Com muito humor à mistura, Serpentina é um livro que se lê num ápice, bem escrito e com aquele gostinho português que só os nossos autores nos conseguem dar. 
Serpentina tem ainda a particularidade de estar livre de todos os estrangeirismos de que se possam lembrar... Mesmo todos. :) Todas as palavras com origem anglo-saxónica são aportuguesadas e, embora seja estranho e não tenha percebido bem o porquê, acaba por ser divertido. 

Mário Zambujal é para manter na minha lista de autores que quero continuar a explorar. 

Gostei e recomendo! 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 130):
"Escanhoo-me com lâmina em estreia, massajo a cara com afetercheive, o tronco, os braços, e as pernas não ficam sem bodimilque. Quanto ao vestir, hesito entre jines e chortes a condizer com a tichârte, mas concluo que indispensável é o blêiser e acompanhado por peças a que se dá os estranhos nomes de calças e camisa. "

julho 23, 2017

A Sentinela - Richar Zimler

Título original: The Night Watchman
Ano da edição original: 2014
Autor: Richard Zimler
Tradução: José Lima
Editora: Porto Editora

"Até que ponto um único assassinato pode iluminar a crise moral em que se encontra o país?
6 de Julho de 2012. Henrique Monroe, inspector-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspector descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.
Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade."

A escrita de Richard Zimler é muito despretensiosa, como se estivesse a escrever para ele próprio e, nos livros que já li dele, sente-se que existe uma necessidade em contar histórias com significado, que acrescentem, que façam pensar, que chamem a atenção para algo.

A Sentinela é um policial que não se limita à investigação de um crime. É, também a história de Henrique Monroe, um inspector-chefe da PJ que vê alguns dos fantasmas do passado regressarem quando é chamado para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um influente construtor civil, com boas relações nas altas esferas da política. Um crime que aparentemente estaria relacionado com negócios menos claros começa aos poucos a revelar algo bem mais perturbador.
Henrique é uma pessoa especial, a todos os níveis. Veio viver para Portugal, com o irmão mais novo, depois do pai de ambos ter morrido? desaparecido? Nunca nos é dito, ao certo, o que se passou com o pai.
Divide a mente e o corpo, com Gabriel, um homem?, uma entidade? que parece saber tudo, e que de vez em quando toma posse do corpo de Henrique e ajuda-o em fases críticas da sua vida e nas investigações. Gabriel surgiu-lhe, pela primeira vez, quando Henrique era ainda uma criança e nesse dia Henrique acredita que a vida do irmão mais novo foi salva.
Vítimas de violência psicológica e física, os dois irmãos só se tinham um ao outro e a relação que têm um com o outro é muito bonita, à falta de melhor expressão. No decorrer desta investigação Henrique vai ser forçado a enfrentar alguns dos seus demónios pessoais, vai ser forçado a tomar decisões sobre a sua vida e sobre aqueles que mais ama.

E é, mais ou menos sobre isto. Não vou estar aqui a esmiuçar muito a história, porque tratando-se de um policial, qualquer coisa que se diga pode já ser demais.

Gostei da história e da forma como nos vai sendo contada. Gostei das personagens, principalmente de Henrique que me pareceu muito bem pensado e realista, mesmo com todas as particularidades, nunca o achei exagerado e pouco credível. Senti, por parte do autor, uma grande sensibilidade e muito cuidado em torná-lo uma personagem forte e credível, o que foi largamente conseguido e foi essencial para que a história se tornasse cativante e ficasse comigo para além do último ponto final e do fechar do livro.

Embora, em termos de história e de importância histórica, A Sentinela não seja um livro tão grande como Os Anagramas de Varsóvia (opinião aqui), não deixa de ser um livro menos bem escrito por isso. É um livro bem escrito, coeso, envolvente e que toca em temas muito importantes e transversais à sociedade.

Gostei bastante e recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto (pág. 69):
"Em miúdo imaginava que o Espetro não tinha as emoções das pessoas vivas. E que era por isso que conseguia concentrar-se na busca de Ernie excluindo tudo o resto. Mas hoje sei que ele entra em pânico. Na verdade, acho que conhece melhor o medo do que qualquer pessoa que eu alguma tenha conhecido, incluindo o meu irmão.
Os miúdos não têm experiência suficiente que lhes permita reconhecer o que é excecional ou único, e eu partia do princípio de que todos eram iguais a mim e recebiam mensagens nas mãos ou noutra qualquer parte do corpo. Só quando falei nelas à minha mãe é que percebi que eu tinha mais sorte do que as outras pessoas. Ela disse-me que nunca recebera mensagens dessas e que não conhecia ninguém que as tivesse recebido. Disse-me para nunca falar nisso - especialmente ao meu pai - porque ninguém iria acreditar ou compreender. Seria o nosso segredo.
«O nosso segredo», disse ela em português, com a mão pousada na minha cabeça (...)"

julho 08, 2017

A Desumanização - valter hugo mãe

Título original: A Desumanização
Ano da edição original: 2013
Autor: valter hugo mãe
Editora:Porto Editora

"«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»
Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza."

valter hugo mãe é, parece-me, um daqueles escritores que, ou se ama ou se odeia. Eu comecei por amar, com a máquina de fazer espanhóis (comentário aqui). Neste momento estou longe, muito longe de odiar, mas também já não estou propriamente a amar. Os últimos livros que tenho lido dele têm sido, menos cativantes, não sinto a espontaneidade dos primeiros que li. E tendo a achar as histórias propositadamente chocantes. Não sei. Confesso que tenho ganho alguns anti-corpos ao valter hugo mãe. :/

A história de A Desumanização passa-se na Islândia, numa vila pequena e isolada. Dá ideia até de se passar num tempo diferente do nosso, talvez num tempo que nunca existiu.
É a história de duas irmãs, Halla e Sigridur, irmãs gémeas, inseparáveis, as melhores amigas uma da outra. Sigridur mais espontânea, mais extrovertida e criativa, Halla mais contida, menos participativa a viver mais na sombra da irmã. Um dia Sigridur morre. Num dia estava tudo bem, no outro começa a ficar doente e passado pouco tempo acaba por morrer. 
Halla vê-se sozinha pela primeira vez, sem conseguir libertar-se da presença da irmã, que imagina viva debaixo da terra onde foi enterrada. Sem a orientação da irmã e atormentada pela mãe que enlouqueceu um bocadinho com a morte da filha. A mãe culpa Halla por não ter morrido com a irmã. Que sentido faz, sendo gémeas, que uma tenha morrido e a outra tenha o descaramento de não morrer a seguir? Halla quase concorda com a mãe.

Para além das gémeas, dos pais destas, temos Einar, um homem com a mente de uma criança, num corpo de adulto. Vive com o pároco da vila e é obcecado pelas irmãs, diz que vai casar com elas. As miúdas não devem ter mais de 10 anos e Einar tem um atraso mental, embora tenha sido uma criança normal. Diz-me na vila que um trauma de infância o deixou assim. As duas sempre resistiram às investidas de Einar. Halla sozinha acaba por encontrar em Einar um bocadinho da irmã, alguém que a compreende e que demonstra uma sensibilidade e sensatez que a surpreendem.

Não vou avançar com mais pormenores da história porque acabaria por contá-la toda.

Acho que A Desumanização é sobre a desumanização de todos. A desumanização dos pais de Halla e Sigridur e a desumanização de toda uma comunidade. Existe, pelo contrário, uma espécie de humanização de Einar e da relação deste com Halla.O isolamento e a solidão que parecem esbater as fronteiras do que é certo ou errado. Crianças que não parecem crianças e que pensam e sentem como adultos. Adultos que se comportam com a imaturidade de uma criança, na forma de sentir e de agir.

É um livro triste, que não é fácil de ler. Não me consegui abstrair da pouca idade de Halla o que tornou algumas partes da história difíceis de ler e acabei por não perceber o propósito de alguns dos acontecimentos. Fiquei com a sensação de que se trata de uma espécie de fábula, no entanto não tive capacidade para me abstrair da realidade que saltava das páginas e isso acabou por tornar o livro, para mim, de certa forma penoso.

É certo que continuo a gostar muito da escrita de valter hugo mãe, continuo a achar impressionante o à vontade que demonstra com personagens femininas, de todas as idades. No entanto parece-me que as histórias deixaram de me impressionar. Não sei se deixaram de se credíveis, não sei se fui eu que deixei de me identificar, não sei. Só sei que não têm sido aquilo de que tanto gostei na máquina de fazer espanhóis.

Estou dividida. Não sei se recomendo ou não este livro. Acho que vale a pena ler valter hugo mãe, que não é um escritor para as massas e tem uma escrita e uma forma de contar histórias que pode ser muito envolvente e realista. A Desumanização não é um livro para todos e não é um livro que se possa recomendar sem reservas.
Reservas feitas, acho que o recomendo. Vai valer a pena, se não for pela história, é por se passar na Islândia. Morro de curiosidade de conhecer o país desde que li O Sino da Islândia de Halldór Laxness (meu comentário aqui).

Boas leituras!

Excerto (pág. 11):
"Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte. 
Ao deitar-me, naquela noite, lentamente senti o formigueiro da terra na pele e o molhado alagando tudo. Comecei a ouvir o ruído em surdina dos passos das ovelhas. Assim o expliquei, assustada. Disseram-me que talvez a criança morta tivesse prosseguido no meu corpo. Prosseguia viva por qualquer forma. E eu acreditei candidamente que, de verdade, a plantaram para que germinasse de novo. Podia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto abandonado nos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto. A minha mãe, combalida e sempre enferma, tocou-me na mão e disse: tens duas almas para salvar ao céu. Assustei-me tanto que lhe tive ternura. A minha mãe não me perdoaria qualquer falha."

junho 26, 2017

Palácio da Lua - Paul Auster

Título original: Moon Palace
Ano da edição original: 1989
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Foi no Verão em que o Homem caminhou pela primeira vez na Lua. Eu era muito jovem nessa altura, mas não acreditava que viesse a haver um futuro. Queria viver perigosamente, pegar em mim e levar-me tão longe quanto possível e, depois, quando lá chegasse, logo veria o que me aconteceria.
Assim começa a inesquecível narrativa de Marco Stanley Fogg - órfão e aventureiro por natureza. Palácio da Lua é a sua história - um romance que atravessa três gerações, desde o início do século XX à chegada à Lua, e serpenteia entre os desfiladeiros de betão de Manhattan e a beleza cruel do Oeste Americano.
Como Marco Polo rumo ao Extremo Oriente e Phileas Fogg nos seus 80 dias à descoberta do mundo, Marco enceta uma viagem de etapas essenciais marcada pela exultação e pela tragédia, por estranhas coincidências e maravilhosos rasgos de lirismo e erudição."

Estou com alguma dificuldade em dar a minha opinião sobre este livro de Paul Auster. Não tem a ver com o ter gostado ou não, porque gostei, tem mais a ver com a dificuldade em passar para aqui, aquilo que o livro é, sem deturpar e deixar aqui, uma imagem daquilo que o livro não é.

Marco Fogg é um jovem adulto que toda a vida viveu com a perda, o abandono do pai ou a inexistência de um pai, a morte prematura da mãe, a separação do tio, o homem que o acabou de criar quando a mãe morreu, e a recente morte do mesmo, sem qualquer aviso.
Marco Fogg parece sentir que não merece nada de bom, tem um instinto auto-destrutivo que não conseguimos perceber. Quando o tio morre, algo se quebra nele. Passa a vaguear pela vida, não a vive. Afasta todos, inclusive os poucos que lhe são próximos. Vive anestesiado e sem saber como fazer diferente. Deixa de comer, para poupar dinheiro, mas não lhe passa pela cabeça arranjar um trabalho que lhe permita pagar a renda, as contas e alimentar-se. Para sobreviver vai vendendo a única herança que o tio lhe deixou, os livros, centenas de livros.
Um dia bate no fundo do poço, sem casa, sem comer há dias, é salvo pelo único amigo, que o encontra meio morto em Central Park e o leva para casa.

Aos poucos Fogg recupera e começa a vislumbrar alguma esperança na sua vida. Apaixona-se e começa a trabalhar para o misterioso Effing. Effing é uma personagem estranha e misteriosa. É um senhor idoso e paraplégico, cego e com muito dinheiro, que contrata Fogg, quando o seu criado de muitos anos morre. Precisa de alguém que lhe faça companhia, que o leve a passear e lhe leia. Precisa também de alguém que lhe escreva a história que tem para contar, antes de morrer.

O livro acaba por estar dividido em duas partes, a vida de Fogg antes de Effing entrar na sua vida e a vida de Effing antes de se tornar a pessoa misteriosa que Fogg conhece. E que história de vida Effing tem para contar e que pequeno é o mundo, uma autêntica ervilha. E mais não digo.

Gostei muito deste livro. Como é habitual em Auster, a escrita é natural, sem grandes floreados e subterfúgios. É também um livro que tem uma angústia crescente, em que temos dificuldade em compreender Fogg e a sua forma de pensar. Tememos por ele, por sentirmos que está doente, ao mesmo tempo que o queremos abanar para que desperte do sono pesado onde se encontra.
À medida que a história vai decorrendo, o ambiente pesado vai-se dissipando e, fazemos figas para que tenha um fim à Paul Auster, cheio de esperança de que dias melhores virão!

Recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 75):
"Com o passar do tempo, comecei a reparar que as coisas boas só me aconteciam quando eu deixava de as desejar. Se isso era verdade, então o inverso teria também de o ser: desejar demasiado determinada coisa impedi-la-ia de acontecer. Essa era a consequência lógica da minha teoria, pois se eu provava a mim mesmo que era capaz de atrair o mundo, então teria forçosamente de concluir que também poderia repeli-lo. Por outras palavras: uma pessoa só alcançava aquilo que desejava não o desejando. Não fazia sentido nenhum, mas o que me agradava nesta ideia era precisamente a sua total incompreensibilidade. Se as minhas necessidades só podiam ser satisfeitas se eu não pensasse nelas, então todos os pensamentos acerca da minha situação eram necessariamente contraproducentes."