março 26, 2017

O Tempo Entre Costuras - María Dueñas

Título original: El Tiempo Entre Costuras
Ano da edição original: 2009
Autor: María Dueñas
Tradução: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

"«O Tempo entre Costuras» é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso; sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias.

Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo."

O Tempo Entre Costuras narra a história de uma costureira, Sira Quiroga, na Espanha de Franco, que acabou por se ver envolvida na luta contra Franco e Hitler.

Sira parte para Tânger, mesmo antes de rebentar a Guerra Civil Espanhola. Parte para viver um grande amor. Quando esse grande amor se transforma num pesadelo, Sira vê-se sozinha e sem dinheiro. Com a guerra em Espanha, não tem como voltar para junto da mãe e acaba por ficar retida em Tânger. Ferida e doente, Sira abandona Tânger e acaba por encontrar abrigo em Tetuán.
Pouco a pouco e com a ajuda de Candelaria, uma marroquina cujo principal meio de sobrevivência era o contrabando, Sira reergue-se das cinzas e começa a costurar para ganhar algum dinheiro. A costura era o que fazia antes de sair de Madrid. Aprendeu a manejar as agulhas e as linhas com a mãe e era algo a que não dava grande importância. Descobre em Tetuán que é muito boa no que faz e a sua arte é muito valorizada, mais ainda quando, está rodeada de mulheres, da alta sociedade europeia - espanholas, francesas e alemãs que também ficaram retidas em Marrocos por causa da guerra.
Sira começa a criar um nome na alta-costura e no seu atelier em Tetuán, conhece aquela que vai ser a maior responsável pela reviravolta na sua vida, Rosalinda Fox, uma inglesa extrovertida que mantém uma relação com Beigbeder, o alto-comissário de Espanha em Marrocos. É Rosalinda quem mais tarde, consegue tirar a mãe de Sira de Espanha e trazê-la para junto dela, em Tetuán. É também por intermédio de Rosalinda que Sira regressa a Madrid para montar um atelier onde se pretende se fazer muito mais do que vestidos de alta-costura. :)

O Tempo Entre Costuras é um romance histórico? Sim, também é um romance histórico. É um romance cor-de-rosa? Sim, também é um romance cor-de-rosa, mas de um rosa muito levezinho, não é nada lamechas e não é arrebatadoramente romântico. O que O Tempo Entre Costuras é, é um romance bem escrito e com personagens que cativam, bem desenvolvidas. É sobretudo, um romance que sabe conjugar bem a parte histórica com a parte ficcional, e que sabe criar muito bem a envolvência da época e dos diversos sítios por onde Sira passa.

Posto isto, é um livro que se lê bem e que nos mantém interessados no destino das personagens e que nos permite conhecer um pouco mais da história recente da Europa e do Mundo, no entanto, confesso que não fiquei muito impressionada com este livro. Acho que a parte da história que é passada em Marrocos poderia ter sido contada em menos tempo, uma vez que, é quando Sira regressa a Madrid que tudo acontece. O livro ganha outro ritmo e outro interesse e, tudo acaba por acontecer em 250 páginas, num livro que tem mais de 600.

É um livro que recomendo, sem grandes hesitações e sem grandes explicações. Não é de todo tempo perdido.

Boas leituras!

Excerto (pág. 138):
"Desatei a correr. Às cegas, furiosamente. Protegida pelo negrume da noite e arrastando o saco com as armas; surda, insensível, sem saber se me seguiam e sem querer interrogar-me sobre o que teria sido feito do homem de Larache em frente da espingarda do soldado. Perdi uma babucha e uma das últimas pistolas acabou por se desatar do meu corpo, mas não me detive por nenhumas das perdas. Limitei-me a continuar a corrida na escuridão, seguindo o traçado da linha, meio descalça, sem parar, sem pensar. Atravessei um campo plano, hortas, canaviais e pequenas plantações. Tropecei, levantei-me e continuei a correr sem um descanso, sem calcular a distância que as minhas passadas percorriam. Nem um ser vivo saiu ao meu encontro e nada se interpôs no ritmo desengonçado dos meus pés até que, entre as sombras, consegui divisar uma placa cheia de letras. Apeadeiro de Malalien, dizia. Seria aquele o meu destino."

fevereiro 25, 2017

[Filme] Batalha Incerta


Título Original: In Dubious Battle
Realização: James Franco
Duração: 1h50min
Origem: EUA

Sinopse:
In the California apple country, nine hundred migratory workers rise up "in dubious battle" against the landowners. The group takes on a life of its own-stronger than its individual members and more frightening. Led by the doomed Jim Nolan, the strike is founded on his tragic idealism-on the "courage never to submit or yield." Published in 1936, In Dubious Battle is considered the first major work of Pulitzer Prize-winning author John Steinbeck.

In Dubious Battle - Batalha Incerta. O filme baseado na obra-prima e homónima, de John Steinbeck. 

Não será o melhor filme de 2017, mas é um filme que vale a pena ver pela história e pelo facto de ser baseado no livro de um escritor único e inigualável que nunca desilude.

Trailer:


O Homem Suspenso - João de Melo

Título original: O Homem Suspenso
Ano da edição original: 1996
Autor: João de Melo 
Editora: Círculo de Leitores

"João de Melo, natural dos Açores e nascido em 1949, é autor do muito premiado Gente Feliz com Lágrimas. Em O Homem Suspenso apresenta uma apaixonante análise e reflexão sobre a identidade portuguesa, construindo e desconstruindo os valores e hábitos identitários portugueses, quer através da descrição dos longos passeios numa Lisboa que tem tanto de bela e imponente como de paradoxalmente anacrónica, quer nas considerações ponderadas do seu narrador. O Homem Suspenso é indiscutivelmente um romance essencial na carreira de João de Melo, e uma obra obrigatória em qualquer biblioteca."

O Homem Suspenso é um livro um pouco estranho e tenho alguma dificuldade em escrever sobre o que li. Não sei onde é que li que o livro fazia uma reflexão sobre a identidade portuguesa após a entrada na C.E.E.. Fiquei com a ideia de que o livro seria diferente e enquanto o lia dei por mim a pensar que tinha muito pouco a ver com a entrada do país na Comunidade Económica Europeia, ou pelo menos assim me pareceu.

João de Melo tem uma escrita muito bonita, não me ocorre outra palavra que descreva a forma como ele conta as suas histórias. O Homem Suspenso não é muito diferente, nesse sentido.
O Homem Suspenso narra a história de um homem (não me recordo se alguma vez nos dizem como se chama), professor universitário, casado com Carminho, a quem traiu alguma vezes durante os anos em que esteve casado com ela.
A história é narrada na primeira pessoa e começa com este homem a vaguear por Lisboa, confuso e meio perdido, sem saber para onde ir nem o que fazer. Surge-nos como um homem a quem foram retiradas todas as certezas, tudo aquilo que sempre teve como garantido parece ter desaparecido. Quem ele achava que era, o que ele achava que tinha e tudo aquilo sobre o qual foi construindo a sua vida, parece ter deixado de fazer sentido.
Carminho terminou o casamento de anos e pediu-lhe que saísse de casa. Sem qualquer hesitação, drama ou rancor, pediu-lhe que se fosse embora porque "Creio, porém, ela deixou de viver-me; que desistiu de amar-me com amor".
É depois deste desfecho inesperado que se inicia a narrativa de O Homem Suspenso que, depois de dormir no carro, inicia uma viagem por uma Lisboa ainda meio adormecida, acompanhado apenas por um cão vadio que o conquistou na sua recente e desconhecida solidão e que nunca mais perdeu de vista.

A mim, O Homem Suspenso, pareceu-me uma reflexão sobre as escolhas que fazemos na vida e o impacto que as mesmas têm em quem nos rodeia e em quem, supostamente, nos é mais próximo. É uma reflexão sobre as relações que vamos criando ao longo da vida e que nem sempre sabemos manter. É uma reflexão sobre o crescimento e a imagem que temos de nós próprios e que, muitas vezes, parece estar desfasada da realidade.

Se tem alguma coisa a ver com a entrada de Portugal na C.E.E.? Talvez, metaforicamente, o país possa ser O Homem Suspenso, um pouco perdido a tentar encontrar o seu próprio caminho, numa estrada completamente estranha, cheia de perigos, mas também repleta de oportunidades e de escolhas. :)

Boas Leituras!

Excerto (pág. 78):
"Todavia o que vai dentro de si é como um grito e um sufoco. Um grito de protesto e indignação, um sufoco de misericórdia ou pena a seu respeito.Pudesse ele chorar, dir-lhe-ia agora tudo o que sempre se esqueceu de lhe dizer chorando. Se pudesse enlouquecer, rir-se-ia alto, correria de braços erguidos pela casa fora, aos gritos, tenebroso perdido alucinado, protestando amá-la mais do que à própria vida. Sair de casa, expulso por ela, eis o infinito absurdo o ridículo o dado precioso e inexplicável da sua tragédia. Em vez do corpo de um homem vivo, sairão daqui para a morgue a chama o fogo e a cinza do seu espírito. A sua natureza. O reino a que pertence, também. Como ele muito bem sabe, como ela sempre soube, como ela nunca deixará de saber."

fevereiro 17, 2017

Gente Pobre - Fiódor Dostoiévski

Título original: Bédnie Liúdi
Ano da edição original: 1866
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução do Russo: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Editorial Presença

"Gente Pobre marca a estreia de Dostoiévski na literatura, em 1846, e estabelece desde logo os fundamentos para uma abordagem social, psicológica e profundamente corrosiva da compreensão humana. A análise pormenorizada das personagens e suas convicções, enquadradas por um pano de fundo de crítica subtil, ganha em Dostoiévski uma força e um poder imagéticos que extravasam as páginas dos seus livros. Em Gente Pobre, o autor transporta-nos para um dos bairros mais miseráveis de São Petersburgo, onde um funcionário de meia-idade troca correspondência com uma jovem costureira. Demasiado pobres para se casarem, o seu amor passa todo e apenas por cartas mantidas ao longo do tempo, que reflectem a cruel realidade do quotidiano passado num ambiente de extrema precariedade. Uma leitura incontornável para quem sinta curiosidade pelo universo dostoievskiano."

Gosto de escritores russos, e particularmente de Dostoiévski. Gente Pobre é conhecido como sendo a sua primeira obra publicada e, embora seja Dostoievski, não deixa de ser o primeiro livro de um jovem aspirante a escritor. Quero dizer com isto que não é espectacular, é antes uma obra interessante que vale a pena ler.

A história passa-se em São Petersburgo onde a pobreza e a falta de condições é de certa forma escondida, meio envergonhada.
Um homem de meia idade, trabalhador, não ganha o suficiente para alugar um quarto, o que ganha permite-lhe apenas alugar uma cama, na cozinha de um apartamento.
Este homem está apaixonado por uma jovem mulher, órfã que vive com dificuldades. De saúde frágil, vai ganhando algum dinheiro com trabalhos de costura. Os dois moram perto um do outro, mas são raras as vezes em que se encontram. O livro é feito das cartas que trocam, diariamente, entre si. Nas cartas desabafam as suas misérias e as dificuldades que diariamente têm de enfrentar. Ele procura não a preocupar e gasta mais do que tem a satisfazer alguns dos desejos dela. Ela procura descansá-lo e desvalorizar as necessidades por que passa. Esta é uma relação que não é bem vista pelos outros. Um homem mais velho, pobre, a cortejar uma jovem órfã, educada mas pobre. São alvo de chacota e acabam eles próprios por não reconhecer, nem um ao outro, que o que sentem pode ser mais do que carinho e amizade.

Acaba por ser um livro triste. Duas pessoas procuram o apoio uma da outra, não sei se por amor ou por necessidade de sobrevivência, financeira e emocional. Duas pessoas que não têm mais nada no mundo, nem nada por que ansiar, com sonhos tímidos, como se não acreditassem verdadeiramente que as suas vidas poderiam melhorar, como se não tivessem o direito sequer a sonhar. É um livro triste.

Gente Pobre, como já disse, é interessante, e que vale a pena ler, por ser de Dostoiévski e por ser a sua primeira obra.

Boas leituras!

Excerto (pág. 14):
"Eu não estou zangado, meu amorzinho, isto é apenas um desgosto meu ao lembrar-me de tudo aquilo, um desagrado para comigo por lhe ter escrito de forma tão alambicada e estúpida. Hoje também fui para o serviço todo gabarola, de tal maneira o meu coração exultava. Estava, nem mais nem menos, com alma em festa; estava feliz! Lancei-me aos papéis com todo o zelo, mas o que resultou daí? Terminada a tarefa e olhando em volta, vi tudo como dantes: cinzento, escuro. As mesmas manchas de tinta, os mesmos papéis e mesas, eu próprio o mesmo, tudo tal como sempre foi; porquê então cavalgar Pégaso? E porque me aconteceu aquilo? Só porque brilhou o sol e o céu ficou azul... foi por isso? E que fragrâncias desencantei, se no nosso pátio, debaixo das janelas, acontece cada coisa! Só pode significar que foi por estupidez que imaginei tudo aquilo. Acontece às vezes que o homem se perde nos seus próprios sentimentos e se põe a disparatar. Não é mais do que o ardor exagerado e estúpido do coração. Não caminhei para casa, arrastei-me para casa; a cabeça começou a doer-me sem motivo; uma desgraça, como se sabe, nunca vem só. (Talvez fosse o vento que me esfriou as costas.) Feito parvo, ficara alegre com a Primavera e tinha ido para o trabalho com o capote leve. E a menina também se enganou quanto aos meus sentimentos! Percebeu o meu desabafo no sentido errado. Era o afecto paternal que me inspirava, pura e simplesmente, Varvara Alekséevna, porque, na sua orfandade amarga, eu ocupo o lugar de seu pai; (...)"

dezembro 26, 2016

Uma Questão de Classe - Joanne Harris

Título original: Different Class
Ano da edição original: 2016
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Elsa T. S. Vieira
Editora: Edições Asa

"A vaga de modernidade parece imparável e inclui a admissão de raparigas, novas tecnologias, uma possível "fusão" com um colégio feminino, e até um novo diretor. É por esse motivo que Roy Straitley, o excêntrico professor de Latim, decide adiar a sua reforma. Há mais de trinta anos que Straitley dá aulas em St. Oswald, onde ele próprio estudou. Para ele, a escola é o seu lar e a sua vida. Enquanto faz os possíveis para manter a tradição, o professor descobre que o novo diretor é nada mais nada menos que um ex-aluno seu, um rapaz cuja memória nunca deixou de o atormentar. E que representa agora uma ameaça que apenas Straitley consegue antever. Pois o novo diretor é admirado por todos. Mas por entre o pó de giz que cintila sob o sol de Outono e o ranger das tábuas do soalho ancestral, há sombras que se agitam...  e alguém que aguarda o momento certo para ajustar contas com o passado."

Em Uma Questão de Classe, voltamos a St. Oswald uns meses depois dos acontecimentos de Xeque ao Rei. Roy Straitley, o professor de latim, prepara-se para mais um ano lectivo e está motivado para ajudar o colégio a ultrapassar mais um escândalo.

No entanto, este ano lectivo parece ter preparado para ele um regresso ao passado, com a notícia de que um ex-aluno de St. Oswald é o novo diretor do centenário colégio. Straitley lembra-se bem demais deste ex-aluno e as memórias que tem do tempo em que, o agora diretor, frequentou o colégio são-lhe dolorosas e difíceis de reviver. Para além disso, esta mudança parece trazer mais mudanças à vida do colégio. O progresso parece querer tomar de assalto as tradições de St. Oswald e o velho professor de latim não parece estar disposto a ser ultrapassado sem dar luta e defender aquilo que acha ser o melhor para a instituição que foi, é e sempre será a sua casa.

Uma Questão de Classe fala de homossexualidade, de pedofilia, de fanatismo religioso e de mentes distorcidas e doentias. Mistura explosiva? Com certeza que sim.
Também fala de tradição e progresso e do preço de cada uma delas. Fala de adolescência e do difícil que pode ser ser-se diferente num mundo pouco tolerante à diferença.

E basicamente é isto.

Xeque ao Rei é um dos livros, de Joanne Harris, de que gosto muito. É natural que as minhas expectativas para este regresso a St. Oswald fossem elevadas. E não foram defraudadas. É um livro ao estilo Joanne Harris, que segue a receita de Xeque ao Rei, com um twist mais para o fim. :)
Pessoalmente, talvez tenha sentido falta de uma personagem feminina forte que a escritora tão bem sabe criar.

Embora continue a gostar muito de Joanne Harris, este últimos livros dela têm sido menos envolventes. Só não sei se foi ela que mudou como escritora ou se fui eu que mudei como leitora. O que quer que tenha mudado nesta nossa relação de tanto anos, uma coisa é certa, haveremos de nos alinhar novamente. :)

Recomendo, como não poderia deixar de ser.

Boas leituras!

Excerto (pág. 158):
"Ele parecia inseguro.
 - Oiçam, está na Bíblia - disse-lhes. - O salário do pecado é a morte. Certo?
O Goldie assentiu com a cabeça. O Caniche também.
 - E ser maricas é pecado, certo?
O Caniche soltou um som estrangulado.
 - É por isso que precisamos de um sacrifício. Para limpar o pecado - expliquei. - Está tudo na Bíblia. O sangue do cordeiro. Ele deu a sua vida para que nós possamos viver.
Acabei por ser eu a fazer a maior parte do trabalho. O Goldie, contudo, disse as palavras; não ia deixá-lo escapar-se sem ter pelo menos um pequeno papel. O Caniche chorou um bocadinho quando o fiz pôr a mão na ratoeira mas, como expliquei, precisávamos que ele estabelecesse contacto. E o Goldie sempre foi um tagarela, tal como o seu pai pregador, na verdade. Assim que lhe expliquei o que era preciso, conseguiu cumprir a sua parte.
 - Este homem foi infectado com o demónio da homossexualidade. Sai dele, demónio imundo; entra na alma desta ratazana e liberta o teu humilde servo.
Nesta altura, o Caniche estava a chorar a bom chorar. Suponho que eram os demónios. Ou talvez fosse apenas alívio; o alívio de partilhar o fardo, de alguém o estar a livrar dele. Sei como isso é, Ratinho. Tu também sabes, não sabes? É bom confessar a alguém, mesmo que a pessoa já esteja morta. Especialmente se já estiver morta - assim, ninguém dá com a língua nos dentes.
Depois afoguei a ratazana, ainda dentro da ratoeira.
Bem, resultou com os gadarenos."

dezembro 07, 2016

A Prayer for Owen Meany - John Irving

Título original: A Prayer for Owen Meany
Ano da edição original: 1989
Autor: John Irving 
Editora: Harper

"«I am doomed to remember a boy with a wrecked voice not because of his voice, or because he was the smallest person I ever knew, or even because he was the instrument of my mother's death, but because he is the reason I believe in God; I am a Christian because of Owen Meany.» In the summer of 1953, two eleven-year-old boys - best friends - are playing in a Little League baseball game in Gravesend, New Hampshire. One of the boys hits a foul ball that kills the other boy's mother. The boy who hits de ball doesn't believe in accidents; Owen Meany believes he is God's instrument. What happens to Owen, after that 1953 foul ball, is extraordinary."

John Irving é um dos meus escritores favoritos, não é segredo. Gosto particularmente da forma como nos permite acompanhar a vida das personagens, desde que nascem até ao dia em que morrem. Também gosto do sentido de humor que está presente em todos os livros que já li dele.

Este, A Prayer for Owen Meany, não me encheu as medidas e sinto que estou a cometer, quase uma heresia, porque as opiniões que tenho lido são todas tão boas que sinceramente fico um pouco constrangida. Para mim, neste livro, John Irving alongou-se demais, e sinto que o livro se tornou um pouco repetitivo. Por outro lado, não senti qualquer empatia com Owen Meany. Não sei se estava à espera que ele fosse mais "adorável", o que também não faz muito sentido, conhecendo John Irving, dificilmente Owen seria "adorável". Isto, aliado ao tema da fé e da religião, fez com que este livro, não me tivesse tocado particularmente. Não me identifiquei com o tema, com as personagens e com as sua angustias e julgo que foi, essencialmente por isso, que não me encheu as medidas.

No que à história diz respeito, não há muito a acrescentar ao que já é dito na sinopse.
O narrador desta história fantástica, quase uma versão alternativa da vida de Cristo, é John Wheelwright o melhor amigo de Owen Meany. John é neto da mulher mais rica e respeitada de Gravesend, New Hampshire e Owen é filho do dono de uma pedreira da cidade. John é um miúdo normal, sem nada que o destaque das outras crianças, a não ser o facto de não saber quem é o seu pai. Owen é a pessoa mais pequena que Gravesend conhece, possui uma voz estridente, é inteligente e é a pessoa mais obstinada e tenaz que John alguma vez conheceu ou viria a conhecer na sua vida. A história gira à volta destes dois e da amizade que os une, mesmo depois de Owen ter, acidentalmente, morto a mãe de John num jogo de basebol.
Owen acredita que Deus tem uma missão para ele, missão essa que lhe é revelada num sonho recorrente. Depois de, durante a peça de Natal onde faz de menino Jesus, ter uma visão, onde vê a sua lápide com o dia e ano em que morreu, Owen passa a ter a certeza de que sabe onde, quando e como vai morrer. John não acredita em nada do que o amigo diz e faz tudo para o convencer de que é apenas um sonho.
A verdade é que Owen passa a viver em função daquilo que julga ser certo e imutável. Prepara-se para aquele dia, fazendo tudo para estar onde acha que Deus lhe disse para estar naquele dia. Até que ponto é ele quem provoca a sua morte? Até que ponto poderia ter sido diferente? Não sabemos. Ninguém sabe e ninguém pode saber.
John, quase sem se aperceber é absorvido pela força de Owen. Tudo aquilo que conquista e todas as suas escolhas acabam por ser condicionadas por Owen, que parece saber exactamente por onde John deve seguir e o que é melhor para amigo. Quase que deixa tudo preparado e encaminhado para que John não se perca depois de ele morrer. E John não se perde, mas também não avança muito, preso a uma personagem inesquecível e a uma história difícil de acreditar. É agora crente mas, como São Tomé, precisou de ver para crer.

E, sem entrar em mais pormenores, é isto.

Embora tenha sido um livro que me pareceu longo demais, lê-se relativamente bem. Tem o cunho de John Irving espalhado pelas páginas, no entanto, para mim não tem John Irving suficiente. Não posso, no entanto, não recomendar a leitura. Acho que, embora não sendo um livro para toda a gente, é um livro que vale a pena ler.

Boas leituras!

Excerto (pág. 79):
"And so that day after Thanksgiving, when Owen Meany met my cousins, provided me two very powerful images of Owen - especially on the night I tried to get to sleep after the foul ball had killed my mother. I lay in bed knowing that Owen would be thinking about my mother, too, and that he would be thinking not only of me but also of Dan Needham - of how much we both would miss her - and if Owen was thinking of Dan, I knew that he would be thinking about the armadillo too."


Este foi uma das histórias de John Irving que serviu de inspiração ao cinema - Simon Birch. Fica aqui o trailer:

outubro 06, 2016

Contracorpo - Patrícia Reis

Título original: Contracorpo
Ano de edição: 2013
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.
Contracorpo é um livro contra o silêncio é sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase-homem - e ainda de descobertas.
Uma mãe nunca é o que se espera.
Um filho é sempre uma surpresa.
O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro-escuro. Como se tudo fosse uma imagem."

Patrícia Reis tem vindo a revelar-se como uma escritora que é impossível não ler. A forma como escreve é... não sei que palavra poderá descrever a escrita dela... talvez natural? Emocional? Não sei. Só sei que gosto porque me parece, como leitora, uma escrita despretensiosa, muito eficiente na forma como nos envolve enquanto leitores e que facilmente nos transporta para dentro da história que conta. Sinto, quando acabo de ler um livro dela que, de certa forma, estou diferente. :)

Inicialmente, Contracorpo parece ser a história de uma mãe e do filho adolescente e da relação difícil que os pais e filhos têm nestas idades. Contracorpo acaba por ser a história de uma mulher, que é muito mais do que a mãe de um adolescente, que embarca numa viagem para se redescobrir e que, nessa viagem, se dá a conhecer ao filho adolescente que nunca pensou na mãe senão como mãe. Como se a vida dela tivesse começado no dia em que ele nasceu.
Nessa viagem, a mãe deixa de lado o papel de mãe e tenta compreender o filho, como a pessoa que é, não olhando para ele apenas como o seu filho, e o filho deixa de julgar a mãe e, conhecendo a mulher acaba por compreender e aceitar a mãe.

É um livro muito interessante de se ler. Os capítulos são curtos, muito ao estilo de Patrícia Reis, alternando entre a narração do filho e a narração da mãe. Embora o livro possa ser, por vezes, angustiante, a energia que emana das páginas é acima de tudo muito positiva.

Gostei muito deste livro e só posso recomendar. Por favor leiam Patrícia Reis, porque vale mesmo a pena.

Boas leituras!

Excerto (pág. 207):
"E, mãe, depois disto tudo, quero dizer-te que já percebi que sei pouco sobre ti.

Como assim?

Uma coisa és tu como mãe, a outra és tu como pessoa. Eu nunca tinha entendido que há uma diferença.

Não sei se há uma diferença, Pedro.

Há uma diferença, quando és mãe tentas cumprir um plano que muitas vezes nõ corre bem porque não sabes prever o que vamos fazer. Como pessoa talvez gostasses de ter feito outras coisas. Percebo isso agora.

Reserva-se. Não sabe o que dizer. Pedro tem razão, claro, uma coisa é o plano, a ideia de cumprir com qualquer tarefa que a faça a melhor mãe do mundo numa competição em que não se lembra de se ter inscrito. Outra coisa, como tantas vezes lhe disse a psiquiatra, é a Maria fora da equação da maternidade. O que era ela? Para onde vai? (...) Revê-se no filho, na sua insegurança, na procura de um lugar. Tem mais de quarenta anos e saberá ela onde pertence? Onde é que encaixa? De repente, o filho parece-lhe mais seguro, mais adulto que ela própria. Na esperança de ser outra coisa, a viagem era para os obrigar a ter uma relação. O que sucedera resumia-se a formas de olhar distintas. Pedro descobriu outra mãe em Maria e ela percebeu mais coisas no filho. Já não são o contracorpo um do outro, são dois corpos em frente um ao outro, a verem-se, a analisarem-se, a medirem-se."